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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Severa


A primeira cantadeira do fado foi Maria Severa Honofriana, nasceu em Lisboa em 1820, seu pai de etnia cigana e a mãe uma portuguesa de Ovar. De beleza exotica e cantar expressivo que conquistou os boemios da capital.
Conta-se quer Levou o fado aos bairros populares de Lisboa e a sua voz animou as noites de muitas Tertulias bairristas, tabernas ficaram famosas só pela sua presença.
Sua mocidade cheia de beleza, despertou paixões... diz-se que terão sido seus olhos aliado ao seu doce canto, atraído o Conde de Vimioso, homem garboso, foi o primeiro Cavaleiro Tauromaquico da epoca. O contraste entre a condição social destes amores, foram por si só tema de muitos fados. Leviano e mulherengo, o Conde deixa a Severa e se apaixona por uma cigana, o que deixa Severa desvairada, começa a não ter forças para lutar pelo seu amante.
Por volta de 1845, os sintomas da doença se manifestam. (A sua morte terá sido devido a tuberculose)
Severa morre pobre e abandonada num miserável bordel da Rua do Capelão, a 30 de novembro de 1846, consta que as suas últimas palavras terão sido — “Morro, sem nunca ter vivido” — tinha 26 anos.
Foi sepultada em vala comum, sem caixão, cumprindo o seu desejo.


Fonte: (texto e imagem) "Lisboa no Guiness"





O Fado

"O Fado é a cantiga que define um povo. Melancolica e apaixonada, como o temperamento da raça que o deu à luz, ela tem na sua toada sonolenta alguma coisa de magoado em que transluz toda uma epopeia roxa de saudade. Da antiga tradição aventureira e sonhadora que nos tem vindo pelos seculos fora ate estacar na miseria inérte d'hoj'em dia, é ela o grito mais fundo e mais bem lançado que da alma de uma nacionalidade tem saido -- grito que só se dá a sós com o coração, grito intimo de tortura e descalabro de ambições. A' ventura pelos mundos de Cristo, sacola ao ombro e bordão de peregrino a quem nada preocupa, -- peregrino da ilusão -- o portugues leva sempre nos labios a doce cantiga do Fado, como balsamo para todas as magoas e incentivo à sua sensibilidade. Raça de poetas e viajeiros, não se dá conosco a fria realidade; d' olhos vendados se caminha; se amanhã não houver pão, Deus o dará; ao longe é a bruma e para ela se vai inconscientemente, não antevendo perigos, desdenhando obstaculos, abandonando conselhos da consciencia; d'ai, a valentia do portugues, a sua tenacidade, a sua ingenuidade e o seu bom fundo. Quem mal não pensa mal não cuida. O Fado foi, pois, a cantiga mais consentaneamente inventada para companheira d'este simples deixar correr que reside em nós todos. Lutas da alma, saudades de tempos idos e coisas desaparecidas, queixas d'amante desprezado, soluço amargo de uma dor oculta, tudo isso ela traduz com um sentimento pungente e doloroso. A mesma ironia é coada por lagrimas; abranda nas inflexões do lamento e em vez de irritar, sensibiliza; amolece os intuitos; quer ferir e afaga, quer apunhalar e dá a vida."

JPinho